Esta
é uma contribuição muito valiosa para o Universo Verde e, para tanto,
agradecemos ao Médico Veterinário HEITOR DAVID MEDEIROS, Subsecretário
de Agricultura e Assuntos Fundiários do Estado de Mato Grosso e Coordenador
da Câmara Setorial de Agricultura Orgânica, atualmente coordenando também
o eixo temático: agricultura sustentável da AGENDA 21
FUNDAÇÃO ESTADUAL
DO MEIO AMBIENTE
Coordenação
Estadual: Eng.JOSÉ IGNÁCIO RIBEIRO NETO - FEMA/MT
VANDERLEI JESUS RISSO - BANCO DO BRASIL
Relatoria:
Biól.
EDNA LOPES HARDOIM, Profa., DSc
UFMT/Instituto
de Biociências
Biól. MARIA SALETI FERRAZ DIAS FERREIRA, Profa., MSc.
UNIVAG/Gerente do Curso de ciências Biológicas
Hoje atravessa-se
um período de requestionamento do comportamento humano em relação aos
ambientes físico, social e cultural. A humanidade encontra-se numa crise
ética sem precedentes porque a sua História aponta para a necessidade
de reformulação de seus princípios de base (Hardoim, 1997). Mas essa
preocupação não é tão recente assim, já que Bahá'u'lláh há pouco mais
de cem anos, em uma série de cartas dirigidas aos líderes das nações
já falava sobre um futuro período da história que levaria a humanidade
a reestruturar a sua vida no Planeta. Esses desafios nunca antes haviam
sido contemplados pela maioria das Nações. Segundo HARDOIM (1999), o
ser humano, identificado cientificamente como Homo sapiens sapiens,
apresenta uma feição muito diversa daquela apresentada por todas as
outras espécies em conseqüência da evolução cultural que alterou substancialmente
o seu relacionamento com os meios físico e social que o cercam. Apesar
da biomassa da humanidade ser apenas 4 X 105 do total existente na Terra,
ela vem exercendo um controle sobre o ambiente desproporcional à essa
representação. Ao longo de sua história, o ser humano tem alterado a
dinâmica dos ecossistemas, provocado o empobrecimento da biota, acelerado
processos de mudanças ambientais naturais e agido para mudanças climáticas
globais na Biosfera (FORATTINI, 1992).
Tem sido reclamado um esforço, de abrangência mundial, para conter as
agressões sofridas pelo meio físico, principalmente. As formas de desenvolvimento
- social e econômico, que têm contribuído para a degradação ambiental,
foram analisadas em um dos maiores eventos, já realizados, em que o
ambiente e os problemas a ele associados foram o foco de amplas discussões
- a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD), mais conhecida como ECO-92 ou Rio-92, assim denominada por
ter sido sediada no Rio de Janeiro, em junho de 1992. Na oportunidade,
foi aprovada, por unanimidade uma declaração contendo 27 princípios
(HARDOIM, 1997, 1999; SATO & SANTOS, 1999). A idéia era tornar possível
a construção de um plano de ação e de um planejamento participativo
em nível global, nacional e local, capaz de permitir, de forma gradual
e negociada, o nascimento de um novo paradigma de desenvolvimento (NOVAES
et al., 2000)- O Desenvolvimento Sustentável. A Agenda 21, documento
histórico de 700 páginas, elaborado por representantes de 179 países
durante a ECO-92, estabelece metas e planos de ação para o século XXI.
Alguns autores, afirmam ser esta, ao mesmo tempo, “mapa e roteiro para
a construção de uma sociedade sustentável” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 1995)
que vai além da dimensão estritamente ambiental e redefine as metas
globais ao considerar também os ambientes social e cultural reclamados
pela definição de uma estratégia de desenvolvimento sustentável para
os países, a partir de um processo de articulação e parceria entre o
governo e a sociedade.
Os Modelos de desenvolvimento observados, em sua grande maioria, são
movidos pelo lucro, produtor de uma minoria de privilegiados que consome
em excesso e de forma perdulária, e de uma grande massa de excluídos
que não tem como satisfazer as suas necessidades biológicas e materiais
mínimas (BISSIO, 2000). A Redução da pobreza e das disparidades nos
padrões de vida das diferentes partes do mundo é essencial para se alcançar
um desenvolvimento sustentável e as necessidades básicas da maioria
das populações. As nações deverão cooperar para conservação, proteção
e restauração da saúde e da integridade dos ecossistemas que são dinâmicos
e complexos, contendo todos os elementos que tornam possível a vida.
Para a elaboração da Agenda 21 Global, foram discutidos os perigos que
ameaçam a vida no Planeta Terra. A Agenda 21 Global constitui-se em
um documento de intenções, onde, em 40 capítulos, se discute e avalia
os problemas prioritários, os recursos e meios para enfrentá-los, estabelece-se
metas para o próximo século e, sobretudo, dispõe sobre a necessidade
de uma aliança entre todos os povos, onde governantes e governados precisam
rever valores - principalmente os éticos, modelos de desenvolvimento
para a construção de um futuro mais próspero e seguro. A não ser que
o desenvolvimento esteja orientado por considerações ambientais, sociais,
culturais e éticas, ele continuará a ter efeitos indesejados, trazendo
escassos benefícios para a Humanidade ou até mesmo levando-a ao colapso.
Ao analisar o custo/benefício destes modelos de desenvolvimento, observando-se
a interação ser humano/natureza, Almeida (1995 apud SATO & SANTOS,
1999) chama a atenção de que o crescimento econômico não leva à sustentabilidade
ecológica nem à remoção da pobreza, não podendo ser o objetivo de sociedades
sustentáveis.
No Brasil, cinco anos após a ECO-92, foi criada por decreto, em 26 de
fevereiro de1997, no âmbito da Câmara de Políticas dos Recursos Naturais
da Presidência da República, a Comissão de Políticas de Desenvolvimento
Sustentável e da Agenda 21 Nacional – CPDS que tem por finalidade
propor políticas e estratégias de desenvolvimento sustentável e coordenar
a elaboração e implementação da Agenda 21 Brasileira. A metodologia
de elaboração da Agenda privilegia uma abordagem multissetorial da realidade
brasileira, procurando focalizar a interdependência das dimensões ambiental,
econômica, social e institucional. Além disso, determina que o processo
de elaboração e implementação deve observar o estabelecimento de parcerias,
entendendo que a Agenda 21 não é um documento de governo, mas um produto
de consenso entre os diversos setores da sociedade brasileira (NOVAES
et al., 2000). Conforme NASCIMENTO & BEZERRA (1999), a Agenda 21
não é um Plano de governo, mas é antes de mais nada, uma proposta de
estratégia destinada a subsidiá-lo
e a ser adaptada, no tempo e no espaço, às peculiaridades de cada país
e ao sentimento de sua população. Deve ser um processo de planejamento
participativo que considere a situação atual do País. Exige o engajamento
de cada cidadão e cidadã.
A metodologia de trabalho aprovada pela Comissão selecionou áreas temáticas
que refletem a nossa problemática sócio-ambiental e determinou a forma
de consulta e construção do documento Agenda
21 Brasileira.
Considerando-se
a complexidade do país e suas regiões dentro do conceito da sustentabilidade
ampliada, foram definidos seis temas centrais para a preparação da Agenda
21 Brasileira que permitiram planejar os sistemas e modelos ideais para
o campo, com uma Agricultura
Sustentável; para o meio urbano, com as Cidades
Sustentáveis; para os setores estratégicos de transportes, energia
e comunicações – questões chaves de Infra-estrutura
e Integração Regional; para a proteção e uso sustentável dos recursos
naturais, com a Gestão dos Recursos
Naturais; para minimizar as disparidades sociais, pela Redução
das Desigualdades Sociais; e para a construção de uma Ciência
e Tecnologia para o Desenvolvimento Sustentável (NOVAES et
al., 2000). Iniciou-se, a partir do primeiro semestre de 1999, um
processo de discussão em oficinas e seminários sobre os seis temas com
a participação de mais de 800 representantes de diferentes segmentos
da sociedade de todas as regiões do país (NASCIMENTO & BEZERRA,
1999).
Hoje,
8 anos após a Rio-92, estamos outra vez diante do documento tentando ajusta-lo
às necessidades e aos interesses das sociedades locais. Mudar o quadro
atual exigirá muito esforço social, pois são impostas mudanças profundas,
pautadas principalmente numa ética planetária. Consumir o necessário,
cortando o excesso em prol da sustentabilidade e do bem-estar do próximo
deverá ser a bússola, segundo BISSIO (2000), ou as gerações que estão
por vir não terão mesmo o que consumir. Não está apenas nas mãos dos dirigentes
o destino dos 6 bilhões de pessoas que habitam nosso Planeta Terra, mas
também de todos aqueles que estão por nascer.
Tudo
isso, hoje, coloca o desafio de construir um desenvolvimento sob uma ótica
integradora, que veja o território em estreita ligação com o capital humano,
que as políticas modernas consideram o fator primordial para a edificação
de uma sociedade sustentável. Implica privilegiar a resolução dos conflitos
entre os vários níveis do coletivo no desenvolvimento local, que deve
ser o ponto de partida.
De
acordo com NOVAES et al.
(2000), também será indispensável promover a internalização das questões
ambientais e sociais nas políticas brasileiras, em todos os níveis,
para que essas dimensões sejam o ponto de partida de todas as políticas
e todas as ações – e não algo a ser observado apenas no final do processo,
com uma intenção “mitigadora” de danos ambientais ou de “compensação”
mínima pelas desigualdades sociais – quase sempre ineficazes.
O
lançamento do documento Agenda 21 brasileira – Bases para Discussão,
sistematiza todo o esforço anteriormente realizado, mas o debate em
torno da construção da agenda brasileira ainda está em curso em todo
o país, realizado pelas diversas camadas da população. Essas discussões
locais devem visar não apenas a construção de um projeto nacional justo,
mais equitativo , mas também contribuir para a Agenda
21 Global.
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